4. REPORTAGENS agosto 2012

1. SORTE  MANUAL DE INSTRUES
2. ATUALIDADES  O HOMEM QUE CAIU DO CU
3. CINCIA  A VINGANA DAS COBAIAS
4. SADE  O QUE COMEM OS ATLETAS
5. ZOOM  A HISTRIA DAS LETRAS
6. TECNOLOGIA  NO LI E CONCORDO

1. SORTE  MANUAL DE INSTRUES
Todo mundo tem sorte (e azar) na vida.  Mas isso no acontece por acaso.   uma mistura de matemtica e psicologia  da sua atitude diante das coisas.  Sim, voc pode mudar a prpria sorte. Comece agora
TEXTO ALEXANDRE DE SANTI E CRISTINE KIST
DESIGN FABRICIO MIRANDA
ILUSTRAES RAFAEL COUTINHO

Quando voc terminar de ler esta reportagem, no podemos garantir que v ganhar na loteria. (Sua chance de acertar na Mega-Sena  de apenas 1 em 50 milhes. Sorry) Mas voc vai virar craque em jogos de dados.  E, principalmente, vai aprender a fazer escolhas melhores e atrair mais oportunidades na vida  em especial aquelas que so geradas por uma sequncia de acasos e parecem cair do cu.  Aquelas que parecem pura... sorte.  E tambm talvez aprenda a pegar pnaltis.

     No dia 19 de maio deste ano, 62.500 torcedores viram o jogador holands Arjen Robben, do Bayern de Munique, ajeitar a bola a 11 metros do gol de Petr Cech, do Chelsea. O cronmetro marcava 4 minutos da prorrogao da final da Copa dos Campees da Europa, e Robben tinha a chance de marcar um pnalti que provavelmente daria o ttulo a seu time.
     Pnalti  loteria, dizem. Quem chuta tem o controle da situao, mas para o goleiro tudo depende do acaso. Ele pouco pode fazer alm de treinar seus reflexos e tentar adivinhar o canto onde a bola vai. Robben correu e chutou rasteiro no canto esquerdo  bem nos braos do goleiro. Ser que Cech teve sorte de adivinhar o lado? O jogo foi para os pnaltis, e ele mostrou que era mais do que isso. Em 5 cobranas, defendeu duas  e acertou o canto escolhido pelo batedor em absolutamente todas.  impossvel ter mais sorte do que isso em um jogo de futebol.
     Sorte?
     Cech revelou seu segredo ao final do jogo. Ele tinha um DVD com todos os pnaltis batidos pelo Bayern desde 2007. Ao longo desses anos, Robben certamente no mandou a bola sempre no mesmo lugar. Cada vez ele chutava de um jeito, numa sequncia de variaes aparentemente aleatrias. S que, estudando dezenas de cobranas, o goleiro percebeu que no era bem assim. Notou que Robben tinha ligeira preferncia por chutar rasteiro e no canto esquerdo. Uma tendncia discreta, que jamais chamaria a ateno  a no ser que voc tivesse a pacincia, como Cech teve, de estudar 5 anos de cobranas. Ele encontrou um padro no que parecia aleatrio. E, a partir dele, constatou: a chance de que a bola fosse baixa e no canto esquerdo era maior. Pulou nessa direo e pegou o pnalti.
     Sorte  acaso. Mas voc pode influenciar esse acaso a seu favor: basta encontrar alguma lgica naquilo que parece aleatrio.  mais fcil do que parece, mesmo porque o ser humano j vem fazendo isso h muito tempo. Veja a questo do clima, por exemplo. Num dia chove, no outro faz sol. Essa alternncia no tinha nenhum sentido para os homens das cavernas. Parecia apenas uma questo de sorte. Mas aos poucos, nossos antepassados foram decifrando a lgica daquilo. A humanidade inventou o primeiro calendrio, e a partir da percebeu que existiam anos, meses e estaes, pocas em que a probabilidade de chover ou fazer sol  maior ou menor. E isso permitiu que fizssemos nossa primeira grande inveno: a agricultura. Sabendo a melhor poca do ano para plantar e colher, o homem se tornou capaz de produzir a prpria comida. Analisou o que parecia indefinido (o clima), encontrou uma lgica naquilo (as estaes), calculou as probabilidades (de chuva ou sol) e as explorou. Em suma: controlou a prpria sorte. Isso aconteceu muitas vezes na histria (as grandes navegaes, por exemplo, s foram possveis porque a humanidade encontrou lgica no movimento aparentemente aleatrio dos astros e das mars). E pode acontecer na sua vida.
     Claro, sempre acontecero coisas que parecem  e so  aleatrias. Imagine que a sorte so bolinhas caindo do cu. Voc no sabe quando elas vo cair nem de que lado. Mas se construir um funil bem grande, a chance de pegar as bolinhas ser maior. Como construir esse funil? Reunindo o mximo possvel de informaes sobre cada situao e calculando as probabilidades envolvidas. A previso fica melhor conforme voc tem mais informaes sobre o fenmeno, diz Jason Gallas, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Teoria do Caos, ramo da cincia que estuda o acaso.
     Tudo  uma questo de probabilidade. Suponha que voc more em So Paulo e tenha um carro. Pode ter o azar de se envolver num acidente de trnsito, e at, azar supremo, morrer em consequncia dele. Cruz-credo. Para esquecer o sinistro trnsito paulistano, que tal relaxar nas belas praias de Vitria, Espirito Santo? Afinal, que sorte, as suas frias esto chegando. Sorte? No caso, voc deu azar: em Vitria, a chance de morrer em decorrncia de acidentes de trnsito  3,4 vezes maior do que em So Paulo, segundo dados do Frum Brasileiro de Segurana Pblica. O que parecia sorte (descansar na praia), na verdade, pode ser um foco de azar. Muito do que entendemos por sorte e azar depende das informaes que temos sobre o que acontece a nosso redor. Veja o caso da americana Marilyn Vos Savant, que nos anos 80 entrou no livro Guinness dos recordes como a pessoa com o maior QI j registrado at ento (228). Nessa poca, ela comeou a assinar uma coluna chamada Ask Marilyn (pergunte a Marilyn), meio parecida com o Orculo, da SUPER. A coluna era publicada em mais de 300 jornais e revistas mundo afora.
     E, em setembro de 1990, Marilyn recebeu uma pergunta que a tornaria ainda mais famosa: Os participantes de um programa de auditrio podem escolher entre 3 portas. Atrs de uma delas, h um carro. Atrs das outras, h apenas cabras. Depois que um dos participantes escolhe uma porta, o apresentador, que sabe o que h atrs de cada porta, abre uma das que no foram escolhidas, revelando uma cabra. Ele ento pergunta ao participante: Voc gostaria de mudar sua escolha para a outra porta fechada? Para o participante,  vantajoso mudar?
     A resposta parece bvia. Cada uma das portas restantes tem 50% de chance de ser a que esconde o carro e, portanto, tanto faz se voc mudar ou ficar no mesmo lugar. Mas Marilyn respondeu que era mais vantajoso trocar de porta. Foi um escndalo. Ela recebeu mais de 10 mil cartas, quase todas dizendo, basicamente, que seu QI altssimo era uma fraude. At professores de matemtica pediram, enfurecidos, que ela se retratasse. A repercusso foi tanta que o caso ficou conhecido entre matemticos como o problema de Monty Hall, j que a pergunta havia sido feita com base no programa Lets Make a Deal (Vamos Fazer um Acordo), game show apresentado por Monty Hall na TV americana.
     Vamos  explicao de Marilyn: quando voc escolhe uma das 3 portas, sua chance de ganhar o carro  de 1/3. Isso significa que a probabilidade de encontrar uma cabra  2/3, ou seja, o dobro. Acontece que essa probabilidade, embora no parea, se mantm a mesma depois que o apresentador abre uma das portas (mesmo porque o carro continua no mesmo lugar). Se voc tiver escolhido a porta certa (probabilidade de 1/3) e mudar, perder. Mas se voc tiver escolhido uma porta errada (probabilidade de 2/3) e mudar, ganhar. Ento, se voc mudar, sua chance de ganhar se torna duas vezes maior do que a probabilidade de errar de novo. A histria do programa comprovou a tese. Houve duas vezes mais ganhadores entre aqueles que mudaram de porta do que entre os que mantiveram a escolha inicial.
     Concluso: voc pode aumentar suas chances se conhecer as probabilidades envolvidas, e arriscar na vida pode ser uma boa ideia. Mas o que significa arriscar, exatamente? No dia a dia,  ter a coragem de fazer algo aparentemente muito simples: se comportar como se voc fosse uma pessoa de sorte.
     
COMO ATRAIR A SORTE
     Sorte no  uma coisa mgica, que abenoa algumas pessoas e outras no. A rigor, ela  a mesma para todo mundo. Numa experincia que ficou famosa, o psiclogo ingls Richard Wiseman foi a um programa de televiso ingls que tinha 13 milhes de telespectadores e pediu: se voc  muito sortudo ou muito azarado, entre em contato. Um milho de pessoas respondeu, e as mil primeiras receberam um formulrio que permitiria aos pesquisadores classific-las como sortudas ou azaradas. Nesse formulrio, os voluntrios tambm deviam fazer uma aposta na loteria. A tese do pesquisador era a seguinte: se os sortudos possuem algum dom divino, sobrenatural, extrassensorial ou qualquer coisa que o valha, eles se sairiam melhor na loteria  que depende apenas da sorte pura e simples. Pouco mais de 700 pessoas responderam. Dessas, apenas 36 acertaram algum nmero da loteria  igualmente separadas entre sortudas e azaradas. Duas pessoas acertaram 4 nmeros e ganharam 58 libras. Uma se considerava sortuda e a outra azarada. Empate. Ou seja: todos temos a mesma chance de ter sorte. S achamos que somos diferentes uns dos outros. E isso acaba nos tornando diferentes.
     Ou seja: uma pessoa  sortuda porque se comporta de maneira sortuda. Como coisas boas acontecem para quem age com otimismo e est aberto s oportunidades, os sortudos se beneficiam de um ciclo virtuoso de sorte: eles se consideram sortudos e, a partir dessa crena, agem do jeito certo para aproveitar a sorte. O azarado se irrita na fila do supermercado, evita conversas com estranhos e, quando aceita trocar algumas palavras com algum, frequentemente est preocupado com outra coisa  a ponto de no perceber que est diante do amor da sua vida ou de seu futuro empregador. Depois de jogar uma oportunidade fora, evita passar debaixo de uma escada, uma superstio boba e vazia. Enquanto isso, o sortudo aproveita a fila para bater papo (porque as pessoas que se consideram sortudas, como ele, exibem em mdia 27% maior extroverso em testes de personalidade). E descobre que o cara da frente est vendendo um timo carro, justamente aquele modelo que ele queria, na cor que ele queria, e com um preo incrvel. Mais tarde, ao contar aos amigos, diz que deu sorte de cair justo naquela fila. Percebeu? Em ambos os casos, a situao e o contexto so exatamente os mesmos. S muda o que cada um fez deles. E esse  o segundo eixo da sorte: a capacidade de transformar encontros casuais em situaes positivas. Porque sorte , sim, uma questo de comportamento. Depois de realizar centenas de entrevistas e submeter um grupo de pessoas a testes de personalidade, alm de acompanhar a rotina dos participantes do estudo atravs de dirios preenchidos pelos prprios voluntrios, Richard Wiseman concluiu que h uma consistncia na sorte. Se ela fosse totalmente aleatria, seria razovel supor que algumas pessoas tero sorte no amor, mas azar no trabalho. Certo? Errado. Em seus testes, Wiseman descobriu que quem se sentia azarado na carreira invariavelmente tambm estava mal resolvido no relacionamento. E vice-versa: os abenoados nas finanas diziam ter sorte na famlia. Algumas pessoas parecem capazes de atrair boa sorte, enquanto outras so um im para o azar, explica Wiseman em seu livro O Fator Sorte.
     Existem 8 truques que comprovadamente ajudam a atrair sorte [veja quadro ao lado]. Dedique-se a eles por algum tempo, como um ms, e voc certamente notar diferenas na sua vida. Vale a pena. O esforo pessoal  importante. Porque, por meio dele, voc pode estar preparado para tirar vantagem da sorte. Ou porque, tentando muitas e muitas vezes, tem mais chances de ser ajudado por ela, diz o fsico Leonard Mlodinow, autor de um livro sobre os acasos do dia a dia (O Andar do Bbado) e, alis, um sortudo sobrevivente dos atentados de 11 de Setembro  ele teve o azar de estar no World Trade Center no momento dos ataques terroristas, mas a sorte de conseguir escapar. Com determinados comportamentos,  possvel, sim, mudar a prpria sorte.
     Ela no  s isso, claro. Sorte tambm depende da gentica: que  influenciada por coisas que acontecem antes de voc nascer, sobre as quais voc no tem controle. Voc no pode mudar a gentica  mas pode aprender a tirar proveito dela.

SORTE DE NASCENA
     O goleiro Petr Cech soube construir a prpria sorte. Mas  claro que ele tambm teve sorte ao longo da vida para chegar aonde chegou. Sorte de nascer com os genes necessrios para ser alto. E sorte de ter nascido no ms de maio. Assim como a esmagadora maioria dos atletas de elite, Cech passou por categorias de base, que so separadas por idade. S que os garotos que fazem aniversrio num determinado ano sempre so agrupados na mesma categoria. Na prtica, isso significa que um menino que nasceu no comeo do ano leva vantagem fsica sobre os demais  simplesmente porque, na prtica, ele  mais velho. Quando era um garoto de 12 anos, Cech provavelmente era mais alto e forte que seus companheiros, que ainda tinham 11 anos e s iriam completar 12 no final do ano. E ele soube tirar proveito disso. Quando olheiros viam Cech jogar, enxergavam nele um rapaz mais preparado e o chamavam para times melhores, com tcnicos melhores. Aos poucos, o pequeno Petr se transformou num atleta melhor que os colegas nascidos no segundo semestre. Uma vantagem aleatria (data de nascimento) se transforma numa vantagem real.
     Esse efeito foi observado pela primeira vez em meados dos anos 80 pelo psiclogo canadense Roger Barnsley. Por acaso, olhando a planilha de jogadores de um time jnior de hquei, Barnsley percebeu que 51% dos garotos haviam nascido entre janeiro e abril. O pesquisador decidiu estudar o fenmeno e viu que ele se repetia por toda parte. Havia 5,5 vezes mais garotos nascidos em janeiro do que em novembro na liga jnior de Ontario, no Canad. Essa regra  uma espcie de lei no escrita dos esportes. Sempre funciona. Por exemplo: na seleo de juniores de 2007 da Repblica Checa, terra de Petr Cech, 76% dos jogadores faziam aniversrio nos primeiros quatro meses do ano e apenas 5% assopravam as velinhas entre setembro e dezembro. Quer mais? Pegue a lista de convocados para a Seleo Brasileira em maio. Dos 23 jogadores, apenas 4 (17,4%) nasceram entre setembro e dezembro. A maioria dos convocados, 14, faz aniversrio no primeiro semestre (caso voc esteja se perguntando, Neymar  de 5 de fevereiro).
     Outros elementos genticos, como nascer alto e bonito, tambm influem na sorte. Uma famosa pesquisa feita pela Universidade da Flrida constatou que pessoas mais altas ganham mais: a cada 2,5 cm de altura, so US$ 789 a mais por ano. E mulheres bonitas ganham 8% a mais que as medianas, segundo um estudo feito pelo economista Daniel Hamermesh, da Universidade do Texas. No caso das gmeas Gisele e Patrcia Bndchen, muito mais do que 8%. As duas so bonitas. Mas uma  mais bonita, e por isso se tornou a modelo mais bem-paga do mundo, com patrimnio estimado em mais de US$ 250 milhes. A outra no. Patrcia teve o azar de ser gmea bivitelina (geneticamente no idntica) de Gisele. Mas soube transformar isso em sorte: abriu a prpria agncia para administrar a carreira da irm.
     A gentica tambm est na base de muitas doenas graves, de alzheimer e alcoolismo a cncer e problemas cardacos. Se voc nasceu com um DNA que predispe a essas coisas, deu azar. Mas pode transformar isso em sorte: vrias empresas, como a americana 23andMe (23andme.com), j oferecem testes genticos que podem ser feitos pelo correio: voc envia uma pequena amostra de saliva para a empresa, paga uma taxa de US$ 300 e recebe os resultados em casa. A, se descobrir que tem propenso a desenvolver alguma doena, pode comear o tratamento dcadas antes de os sintomas aparecerem, e com isso reduzir seu risco de ter problemas. Eu vejo a sorte e o azar acontecendo na minha frente todos os dias. A verdade  que a sorte depende do acesso  informao e, a partir da, do cuidado com a sade, diz o geneticista Salmo Raskin, da Pontifcia Universidade Catlica do Paran e um dos diretores da Sociedade Brasileira de Gentica Mdica.
     Tendo informao,  possvel entender a prpria gentica e se adaptar a ela. Sabe aquele seu conhecido que adora comer salada e, por causa disso, nunca engorda? Provavelmente ele nasceu com a verso boa do gene TAS2R38  que regula a sensibilidade do paladar a determinados vegetais, como brcolis, couve-flor e espinafre, e determina quo saborosos eles so para a pessoa. Quem tem a verso ruim desse gene, cerca de 75% da populao, percebe certos alimentos como amargos, e no gosta muito deles. Se voc no gosta de salada, agora sabe o provvel motivo disso. E pode mudar a prpria alimentao (que tal experimentar a couve-flor grelhada?).

EFEITO BORBOLETA
     Ok, voc aprendeu que  importante calcular as probabilidades das coisas  e que, para ter sorte,  fundamental se comportar como uma pessoa de sorte. Mas sempre existiro coisas totalmente incontrolveis, puramente dependentes do acaso.
     A cincia faz um grande esforo para dar ordem ao emaranhado de aes e reaes da natureza. Mas a tarefa no  simples. Se fosse, voc no chegaria em casa ensopado depois de confiar na previso furada feita pela moa do telejornal. Nem sempre os padres identificados no passado podem ser aplicados no presente e, menos ainda, no futuro. Curiosamente, foi logo um meteorologista, o americano Edward Lorenz, o primeiro a perceber isso. Em 1961, ele tentou jogar num computador toda a informao sobre as condies climticas do planeta  e, se baseando nisso, fazer uma previso do tempo. Deu certo. At que um dia ele resolveu tentar fazer uma previso mais distante. Imprimiu a ltima simulao que tinha feito e comeou uma nova a partir dos resultados daquela, confiante de que o computador acertaria. No foi isso o que aconteceu. O clima se comportou de maneira totalmente diferente da prevista por Lorenz, e por um motivo muito simples: a mquina armazenava os dados de maneira mais complexa, com at seis casas decimais (como 0,293416, por exemplo), enquanto os dados impressos eram simplificados para no mximo trs casas (como 0,293). Lorenz se deu conta que alteraes quase insignificantes poderiam mudar drasticamente o resultado final, e chamou isso de Efeito Borboleta: porque algo muito pequeno, como o bater de asas de uma borboleta, poderia causar algo muito grande, como um tornado em outra parte do mundo. Esse conceito transformou o estudo do caos. Na vida, existem coisas que so realmente imprevisveis, e por isso impossveis de influenciar. Nesses casos, nos resta apenas interpretar os acontecimentos de uma forma que favorea a nossa sorte. Como Frano Selak.
     Nascido na Crocia, Selak teve uma vida incrvel. Escapou da morte 7 vezes, ao se envolver em acidentes graves a bordo de avies, trens, carros e nibus. Mas sobreviveu a todos  e acabou ganhando uma fortuna na loteria. Selak ficou conhecido na Europa como o homem mais sortudo do mundo. Na mais espetacular das disputas contra a morte, em 1963, o croata estava voando em um avio. De repente, uma porta abriu sozinha. Os passageiros foram ejetados e despencaram para a morte. Dezenove deles morreram. Frank? Caiu bem em cima de uma pilha de feno, e se salvou.
     Mas, provando que sorte sempre  uma questo de interpretao, o croata se achava um azarado. Nunca pensei que eu era sortudo por ter sobrevivido. Eu achava que era azarado de estar envolvido nos acidentes, disse a um jornal britnico. Trinta anos depois, ele ganhou na loteria, comprou uma ilha privada e viveu com luxo por anos. At que percebeu que o dinheiro no lhe trazia felicidade e decidiu doar tudo, vender a manso e se mudar para uma residncia modesta com a quinta esposa. Selak s comeou a se considerar sortudo depois de conhecer a mulher atual. Todos os outros casamentos foram desastres, disse. Outra histria ajuda a mostrar como o que interessa no  ganhar ou perder, mas o modo como encaramos os fatos. No incio deste ano, os moradores da vila de Sodeto, na Espanha, fizeram um bolo para jogar numa espcie de Mega-Sena acumulada, o maior prmio da loteria espanhola. Um membro de uma associao local bateu em cada uma das 70 casas do vilarejo para vender os tquetes. E, para sorte geral, todos os 250 moradores ganharam na loteria. Exceto Costis Mitsotakis. O funcionrio havia esquecido de oferecer o bolo para ele. De uma hora para outra, todos os conhecidos de Mitsotakis estavam ricos, menos ele. Mas o grego, que estava tentando vender um terreno, sem sucesso, percebeu que a riqueza dos vizinhos podia lhe beneficiar. Logo recebeu duas propostas. Transformou o azar em sorte.
     O que  o mesmo que dizer que voc pode conhecer a pessoa da sua vida porque perdeu um voo  ou perd-la porque conseguiu embarcar no avio e ela no. Ento, da prxima vez que voc der de cara com um embarque encerrado, pegar uma fila, tropear na rua ou se deparar com algum contratempo que parea azar, lembre-se: pode ser seu dia de sorte. 

A MATEMTICA DA SORTE
As probabilidades matemticas mudam de maneiras que nem sempre percebemos  gerando o que chamamos de sorte.  No sculo 17, o duque da Toscana notou que, quando jogava 3 dados, o nmero 10 aparecia com mais frequncia que o 9, Mas a probabilidade de todos os resultados no deveria ser a mesma?  O duque chamou Galileu Galilei para investigar. Veja o que ele descobriu.

Quando jogamos 3 dados, o nmero de combinaes com as quais podemos obter tanto uma some de resultado 9 quanto uma de resultado 10  exatamente o mesmo.

Para o 9, temos seis combinaes 
(explicao da digitadora: a informao est em forma de desenho, com os dados do jogo de domins, portanto, aqui ser mostrado como cada nmero representando um dado com o valor correspondente)
6  2  1 
5  3  1 
5  2  2
4  4  4
4  3  2
3  3  3

Para o 10, temos seis combinaes
6  3  1
6  2  2
5  4  1
5  3  2
4  4  2
4  3  3

 Mas a combinao 3  3  3   mais rara do que as outras porque estatisticamente  mais difcil que os dados caiam todos com o mesmo nmero (no caso, 3) para cima.
 Isso altera a probabilidade das coisas  e faz com que a combinao 10 aparea 8% mais vezes que o 9. Pura matemtica.

VOC TEM SORTE?
Responda s perguntas deste teste, baseado nas teorias do psiclogo ingls Richard Wiseman  especialista no estudo da sorte.

SORTE
Com que frequncia voc ganha em sorteios?
1 (pouco)  2  3  4  5  6  7 (muito)

Voc costuma encontrar pessoas que possam lhe ajudar de alguma forma?
1  2  3  4  5  6  7

Com qual frequncia a sorte lhe ajuda a conseguir alguma coisa?
1  2  3  4  5  6  7

Some as respostas e divida por 3 para obter sua mdia de sorte.

AZAR
Com que frequncia voc perde em competies, sorteios e jogos?
1  2  3  4  5  6  7

Com que frequncia sofre acidentes?
1  2  3  4  5  6  7

Com que frequncia voc tem azar?
1  2  3  4  5  6  7

Some suas respostas e divida por 3 para obter sua mdia de azar.

RESULTADO
Subtraia sua mdia de azar pela mdia da sorte. Depois, compare com a escala abaixo
-3: Voc  azarado. Mas pode mudar isso (veja na prxima pgina).
-2 / -1 / 0 / 1 / 2: Voc est na mdia  no pode se considerar especialmente sortudo nem azarado.
3: Parabns, voc tem mais sorte do que as outras pessoas. Aproveite.

AJA COMO UMA PESSOA DE SORTE
As pessoas que se consideram sortudas tm algumas caractersticas em comum  que voc pode facilmente adotar na sua vida.
1- Multiplique as chances: Sabe aquele conhecido que vive ganhando em promoes? Ele ganha porque joga. Participe mais de concursos.
2- Seja socivel: Quanto mais pessoas voc conhecer, maior  a chance de que alguma delas traga boas notcias  como uma oferta de trabalho.
3- Tenha calma: Se voc viver correndo, jamais ter a sorte de notar aquela nota de R$ 50 dando sopa na calada.
4- Busque o novo: Faa coisas diferentes.  Com isso, sua chance de ter sorte se torna estatisticamente maior.
5- Aceite o acaso: No tente ser racional o tempo todo.  Aceite que a vida tem coisas aleatrias.
6- Medite: Ajuda a tomar boas decises, o que  essencial  sorte.  Um estudo constatou que as pessoas sortudas meditam com mais frequncia.
7- Acredite: Se voc no acredita que vai encontrar sua cara-metade, provavelmente no vai encontrar mesmo. Seja otimista.
8- No d bola para os nmeros: Queria se candidatar a um concurso concorridssimo, mas desistiu porque a chance era pequena? Ao desistir ela passou a ser de 0%.  E facilitou a vida do sortudo que conquistou a vaga.

TRANSFORME O AZAR EM SORTE
Voc ter azar de vez em quando.  Mas quando isso acontecer, esteja preparado.
1- Seja positivo: Quando voc est no banco, assaltantes entram e atiram e acertam seu brao de raspo.  O azarado reclama de estar ali.  O sortudo comemora ter se salvado por pouco.
2- Pense a longo prazo: Talvez voc seja demitido hoje, mas encontre um trabalho melhor amanh  oportunidade que s notou porque estava desempregado.
3- No se lamente: Ficar pensando no pneu furado no far com que um novo aparea magicamente no lugar dele.
4- Seja ativo: Analise objetivamente a situao de azar, e mude sua conduta a partir disso (encha menos o pneu ou tente evitar ir ao banco, por exemplo).

PARA SABER MAIS
The Luck Factor: The Four Essential Principles 
Richard Wisemn, Mirmax Books, 200.
O Andar do Bbado
Leonard Mlodninow, Zahar 2009


2. ATUALIDADES  O HOMEM QUE CAIU DO CU
Nas prximas semanas, Felix Baumgartner ir tentar o salto mais alto de todos os tempos. Ele vai quebrar a barreira do som durante a queda  e bater um recorde que j dura 52 anos. Ou morrer de um jeito terrvel.
TEXTO PIETER ZALIS E BRUNO GARATTONI
DESIGN RICARDO DAVINO

     Numa manh de vero no deserto de Roswell, nos EUA, um balo comear a subir. Puxar uma cabine pressurizada, que lembra as cpsulas usadas em voos espaciais. Quando ela chegar a 36 mil metros, sua portinha se abrir. E dela sair o paraquedista Felix Baumgartner, que vai tentar realizar uma das maiores proezas da histria: maior salto de todos os tempos, e primeira vez em que um ser humano ultrapassar a velocidade do som em queda livre. Vai ser isso, ou um desastre terrvel  no qual Felix poder morrer de vrios jeitos. O salto  uma das coisas mais arriscadas que algum j tentou fazer.
     Isso porque, ao saltar, Felix estar na segunda das 5 camadas atmosfricas: a estratosfera. A vista  linda, mas o lugar  extremamente hostil. A temperatura estar por volta dos -35C e no h oxignio suficiente para respirar. Por isso, ele saltar protegido por um traje especial, inspirado nas roupas de astronauta. Mas inmeras outras coisas podem dar errado. Para dar uma ideia do nvel de risco, Felix queria saltar com gel no cabelo  porque  vaidoso e quer sair bonito nas fotos tiradas quando ele chegar ao solo. Mas foi proibido de fazer isso. Porque gel de cabelo contm petrleo, e por isso poderia se tornar extremamente inflamvel dentro do capacete, que ser pressurizado com oxignio.
O salto est sendo preparado desde 2005 e conta com uma equipe de 19 especialistas que inclui engenheiros, mdicos e meteorologistas. Para Felix, um austraco de 43 anos conhecido por feitos extremos,  um novo desafio na carreira de paraquedista. Para os especialistas trabalhando no salto,  uma oportunidade de desenvolver avanos cientficos e mdicos. E para Jonathan Clark, uma questo pessoal.
     Clark  o diretor-mdico da misso, e tem um retrospecto invejvel: trabalhou na Nasa como consultor mdico para as viagens do nibus espacial. At que, em 2003, algo terrvel aconteceu. Quando o nibus espacial Columbia estava reentrando na atmosfera terrestre, uma de suas asas arrebentou. O veculo acabou se desintegrando e todos os 7 ocupantes morreram. Entre eles, a astronauta Laurel Clark, que estava em sua primeira misso espacial  e era a esposa de Jonathan. Tudo indica que ela tenha morrido de frio e descompresso, as marcas registradas da altitude extrema. As mesmas condies que Felix ir enfrentar. E se tudo der certo, sobreviver. Para ser sincero, eu acredito que seja destino poder ajudar Felix com essa tentativa, diz.
     Mas como um ser humano poderia sobreviver a uma queda to grande? Segundo Clark, todos os acidentes fatais com espaonaves ocorreram na regio atmosfrica que abrange a alta estratosfera e a baixa mesosfera: exatamente de onde Felix saltar. O acidente do Columbia, por exemplo, aconteceu entre 42 e 45 quilmetros. O Challenger, em 1986, a cerca de 15 quilmetros. Ns poderemos aprender a tornar as viagens espaciais mais seguras, diz Clark.

O CORPO SUPERSNICO
O salto de Felix deve acontecer at setembro. O dia exato ainda no foi definido pelos organizadores porque h exigncias meteorolgicas estritas: a velocidade do vento no pode estar acima de 3 km/h e o cu tem de estar completamente limpo. A misso comear s duas da manh, quando o paraquedista far um check-up mdico. Depois, passar duas horas vestindo seu traje, de 15 quilos. Enquanto isso, a equipe preparar o balo, desenvolvido especialmente para a misso. Ele  100 vezes mais fino que uma bexiga de festa e tem 168 metros de comprimento  ao nvel do mar. Conforme o balo for subindo, a reduo da presso atmosfrica o far ficar mais estufado e por isso mais curto, com 102 metros de comprimento por 129 de largura.
Felix entrar na cpsula, subir por duas horas e meia at alcanar 36.572 metros (altura escolhida porque permitir que ele acelere o suficiente durante a queda). Na hora do salto, ter de seguir uma sequncia de 43 etapas, que incluem pressurizar o traje, despressurizar a cpsula e travar sua porta na posio aberta para impedir que ela se mexa e esbarre em Felix. Tudo deve ser feito na ordem correta para garantir que eu saia em segurana, diz. Pode parecer exagero, mas no . A preciso realmente tem de ser milimtrica. Em 1966, o russo Pyotr Dolgov tentou um salto de 28 mil metros. Ele estava protegido por um traje pressurizado, parecido com o de Felix. Mas na hora de saltar, com os movimentos prejudicados pela armadura, acabou batendo a cabea de leve. O visor do capacete trincou e o ar comeou a escapar por ali. E Dolgov sofreu uma condio terrvel, conhecida como ebullism (algo que poderia ser traduzido como fervurite).
     L em cima, a presso  baixa  e, por isso, acima de 19 mil metros, o ponto de ebulio dos lquidos se torna menor do que a temperatura do corpo humano (36,5 C). Isso significa que, se voc no estiver completamente isolado do ambiente, a gua do seu organismo literalmente comear a ferver. Mais de 70% do corpo  gua, explica Ricardo Kanashiro, do Instituto de Medicina Aeroespacial da Fora Area Brasileira. Formam-se bolhas no sangue, que no consegue levar oxignio suficiente para o crebro. E voc morre. Como Dolgov.
     Felix precisa saltar com a cabea para baixo e o corpo inclinado num ngulo perfeitamente calculado. Perfeitamente. Se ele estiver um pouquinho torto, ou com os ps desalinhados, comear a girar durante a queda. Essa rotao o far perder a conscincia e poder continuar acelerando at levar ao rompimento do tronco enceflico, estrutura que conecta o crebro  medula. Resultado: paralisia ou morte. O giro descontrolado tambm pode ter uma consequncia mais prosaica, mas tambm perigosa: Felix pode vomitar dentro do capacete e ficar com a viso obstruda, incapaz de se orientar. Se isso acontecer, ele tem de segurar o vmito na boca o mximo possvel, e solt-lo de lado. Desse jeito, pelo menos um dos olhos ficar livre, diz Clark. Felix poder acionar um paraquedas de estabilizao para controlar o giro. Mas isso abortar sua tentativa de quebrar a barreira do som.
     Se nada disso acontecer, em menos de 30 segundos Felix ultrapassar a barreira do som. E nesse momento surgir o prximo risco: as ondas de choque.  o seguinte. Quando um objeto se desloca, gera duas ondas  uma empurra o ar que est na frente do objeto, e a outra puxa o ar que est atrs. Essas ondas se propagam na velocidade do som. Mas se o objeto se deslocar mais rpido do que a velocidade do som, que nas condies do salto de Felix ser de 1104 km/h (a velocidade do som varia conforme a temperatura), ele atropela as ondas, que so foradas uma contra a outra e formam uma onda de choque. Num avio supersnico, isso no chega a ser problema: s gera um som muito forte, que lembra uma exploso. Mas ningum sabe como o corpo de Felix, e principalmente seu traje de proteo, ir lidar com a onda. Nossa maior preocupao  que no sabemos como o corpo humano passar por isso. Mas  justamente o que queremos descobrir, admite Clark.
     Felix continuar descendo. Quando estiver a 21 mil metros, mudar de posio: vai ficar na horizontal, com a barriga para baixo, Isso vai gerar maior atrito com o ar, e junto com o aumento da densidade atmosfrica frear a queda. Quando Felix atingir 1500 metros de altura, j estar muito mais devagar  a aproximadamente 200 km/h, mesma velocidade de uma queda livre comum. Chegou a hora de abrir o paraquedas (se ele apresentar algum problema, o reserva ser acionado automaticamente a 760 metros).
     Se tudo der certo, Felix Baumgartner ter feito o que nenhum outro homem fez. Ser um heri.

O CRIADOR E A CRIATURA
     Em fotos de infncia,  comum ver o pequeno Felix subindo em cima de rvores. Ele adorava desenhar paraquedistas, e seus dolos eram o Homem-Aranha, o Super-Homem e o Batman  todos heris com algum tipo de capacidade de voo. Aos 16 anos, Felix saltou pela primeira vez. Aos 18, se alistou no exrcito austraco, onde logo deu um jeito de ser transferido do setor de tanques para o de paraquedismo. Trabalhou como mecnico de motos e piloto de helicptero comercial antes de virar paraquedista profissional. Ele acabou se especializando em Base Jumping (salto de baixssimas altitudes) at que, em 1999, quebrou o recorde da modalidade  ao se atirar do Cristo Redentor, a apenas 30 metros do cho. Esse salto mudou minha carreira. Deixei de ser um z ningum para me tornar algum conhecido. Felix j fez mais de 4200 saltos, e s se machucou uma vez: quebrou a perna ao saltar do viaduto Eisentrantten na ustria, em 1996. Agora, se prepara para bater o maior de todos os recordes. Porque, sim, esse recorde j existe.
     Em agosto de 1960, o americano Joe Kittinger sentiu na pele o que  cair em queda livre da estratosfera: protegido com capacete e traje pressurizado, saltou de 31.333 metros de altura. Hoje com 83 anos, est trabalhando junto com Felix  e ser o responsvel pela comunicao com ele durante o salto. Kittinger  uma lenda viva. Alm de saltar da estratosfera, foi piloto de caa na Segunda Guerra Mundial, primeira pessoa a atravessar o Atlntico a bordo de um balo de hlio, tem mais de 16 mil horas voadas em 93 diferentes aeronaves  e j sobreviveu a um acidente grave. Em um de seus saltos, ele se desestabilizou e acabou com o paraquedas principal enrolado no pescoo. Aps um minuto de queda, rodopiando e inconsciente, foi salvo pelo paraquedas reserva. O mesmo que poder acontecer com Felix. Ele precisa ter o que eu chamo de trs Cs: confiana na equipe, confiana no equipamento e confiana nele mesmo, diz.
     Alm de ser o maior feito da histria do paraquedismo e uma das coisas mais incrveis e arriscadas que um ser humano j tentou fazer, o salto tambm  um grande golpe de marketing. Ele est sendo patrocinado pela Red Bull, que quer ter a prpria imagem vinculada a esportes radicais  mas poder sofrer um desastre de relaes pblicas sem precedentes se algo der errado e Felix acabar morto ou ferido. No Brasil, a empresa adota uma posio de confiana absoluta: A gente no trabalha com a hiptese de a misso dar errado, diz Joo Perocco, assessor de comunicao da Red Bull. Perguntada sobre a mesma questo, a sucursal americana admite que h risco envolvido  mas ressalta que uma equipe de especialistas de renome mundial est trabalhando para minimiz-lo ao mximo.
     Tomara que Felix Baumgartner volte so e salvo. E que, mais do que bater recordes, consiga provar que ainda  possvel ir aonde homem nenhum foi  e voltar com vida. Sempre .

ASCENO E QUEDA
Como fazer o que nenhum homem jamais fez  e voltar com vida

1- SUBIDA  Nos primeiros 150 minutos, Felix subir de balo, numa velocidade mdia de 17 km/h.  Ele estar dentro de uma cpsula, com temperatura e presso mantidas artificialmente e um suprimento de oxignio.
 300 m: Zona da Morte. Se alguma coisa acontecer at aqui, no haver tempo para Felix se ejetar da cpsula  e ele sofrer uma queda fatal.
 7600m: Oxignio insuficiente para respirar sem aparelhos
 8848m: Monte Everest
 de 15.000m a 35.000m: Camada de oznio
 18.000m: Estratosfera
 30.000m: Balo meteorolgico
 31.333m: Recorde atual

2- SALTO  Quando atingir 36.572m, Baumgartner ir abrir a porta e saltar.  Mas antes ter de cumprir uma sequncia de 43 etapas, como despressurizar a cpsula, pressurizar seu traje e ficar na posio correta para o salto. Assim que ele saltar, um paraquedas conectado  cpsula se abrir automaticamente para amortecer a queda dela no mar.

3- QUEDA  O corpo de Felix cai rapidamente: 30 segundos aps o salto, j ultrapassa a velocidade do som: 1104 Km/h. A queda livre durar mais 5 minutos, alcanando 1324 Km/h aproximadamente (1,2 vez a velocidade do som).

4- POUSO  A 1500 metros do solo, Baumgartner aciona o paraquedas, que tem uma tarefa dificlima: reduzir a velocidade de 1300 km/h para 20 km/h. Ele  3 vezes maior que um paraquedas convencional.  Sro cerca de 10 a 15 minutos at a aterrissagem.

VESTIDO PARA SALTAR
Paraquedista ser protegido por um traje que lembra o dos astronautas.

BOLSA TORXICA -  uma caixa que abriga os sistemas de comunicao, monitoramento e rastreamento. E tambm a unidade de medida inercial (IMU) da Federao Aeronutica Internacional. Um computador que ir registrar a velocidade e 4 recordes:
1. VOO MAIS ALTO DE BALO TRIPULADO
2. SALTO MAIS ALTO DE PARAQUEDAS
3. QUEDA LIVRE DE MAIOR DURAO
4.QUEBRA DA BARREIRA DO SOM

TRAJE - Tem um sistema de pressurizao. Sem essa proteo, Felix morreria por problemas relacionados  falta de presso atmosfrica no espao. Um computador ajusta automaticamente a presso, que ser reduzida aos poucos durante a queda. O traje tem sistemas de aquecimento e resfriamento para proteger contra a variao de temperatura: de -60 a + 38 C.

CAPACETE - O visor tem uma pelcula que protege da luz, porque Felix estar acima da camada de oznio, sem proteo contra os raios ultravioleta. Tambm h um circuito de aquecimento, para evitar que ele embace ou congele. Um regulador no capacete permitir que Felix respire ar 100% oxignio. Uma escotilha de alimentao fornecer lquidos.

PARAQUEDAS - O sistema  composto por 3 paraquedas: principal, reserva e de estabilizao. Esse ltimo ser aberto caso haja instabilidade (se o ngulo do salto no for perfeito, Felix poder comear a rodopiar at perder a conscincia). Se algum dos paraquedas se embaraar ou enrolar, Felix poder cort-lo.

PARA SABER MAIS
Red Bull Stratos 
redbullstratos.com


3. CINCIA  A VINGANA DAS COBAIAS
Todos os anos, 90 milhes de ratos e camundongos morrem em experimentos de laboratrio. Mas novas pesquisas indicam que tudo isso pode ser em vo. E agora a medicina vai ter de rever seus conceitos.
TEXTO JOS LOPES
DESIGN RICARDO DAVINO
ILUSTRAO FERNANDA SIMIONATO
FOTO ALEX SILVA

     O nome da criatura j deixa claro que estamos falando de uma das maiores esquisitice do reino animal: Heterocephalus glaber (cabea diferente, sem pelos). Para os leigos, seu nome  rato toupeira-pelado. Outro apelido menos carinhoso para o bicho africano de 10 cm  pnis com dentes afiados e perninhas (o horror, o horror!). Mas esse animal apavorante, um tipo de ratazana pelada dentua,  a nova aposta da cincia para salvar a pesquisa mdica. Sim, porque os tradicionais ratos e camundongos, as mais populares cobaias de laboratrio do mundo, podem estar ameaando as pesquisas mdicas. Mais do que isso: uma nova corrente de cientistas acredita que os remdios e tratamentos que so testados neles possam nem mesmo funcionar em humanos.
     Mas vamos entender o que est acontecendo. A ameaa toda vem da maneira como esses roedores so criados. Ratos e camundongos de laboratrio quase sempre crescem com comida  vontade e nenhum exerccio. Isso faz com que tenham um metabolismo totalmente anormal, longe de simular o funcionamento do organismo de qualquer pessoa que no seja um obeso mrbido. E, assim, no serviriam para os testes. Posso afirmar com confiana que o excesso de comida e a falta de exerccios tm efeitos profundos sobre a fisiologia e a vulnerabilidade  doena dos rgos dos ratos, diz Mark Mattson, chefe do Laboratrio de Neurocincias do Instituto Nacional do Envelhecimento dos EUA. E vem mais encrenca por a: a baixa diversidade gentica dos roedores de laboratrio tambm estaria distorcendo o resultado das pesquisas. Alm disso, o simples predomnio de camundongos e ratos no mundo da pesquisa pode tambm impedir que espcies mais adequadas sejam usadas para estudar a biologia das doenas. E  a que entraria o rato-toupeira-pelado. Ele  milagrosamente invulnervel ao cncer e poderia nos ajudar a entender como um organismo fica protegido de tumores. Mas, antes de pensar em substitutos,  bom conhecer melhor os mais novos viles da cincia  e entender a ratoeira que eles montaram para ns.

UM RATO  UM RATO  UM RATO
     Ratos e camundongos so espcies bem diferentes  tanto que, na natureza, ratos costumam almoar camundongos. Os camundongos (Mus musculus) medem at 10 cm (metade  cauda) e pesam 20 g. J os ratos de laboratrio costumam pertencer  espcie Rattus norvegicus. Bem mais avantajados, medem 25cm (mais 25 de rabo) e pesam em torno de 500 g.
     Mas por que justamente a dupla se tornou a base das cincias biolgicas modernas? Ratos e camundongos foram introduzidos como modelos para humanos porque tm muitas semelhanas biolgicas com o homem e desenvolvem doenas parecidas, explica o geneticista brasileiro Marcelo Nbrega, da Universidade de Chicago, EUA. De fato, o sequenciamento gentico dos bichos confirmou que eles so parentes mais prximos do homem do que a maioria dos mamferos (como ces, gatos ou cavalos, por exemplo). E, para a pesquisa, quanto mais parecido conosco, melhor. Como  antitico contaminar pessoas saudveis com micrbios ou fazer transplantes experimentais de rgos,  preciso encontrar uma espcie que seja o modelo mais preciso para simular os males. E, nessas, os ratinhos entraram na dana.
     Outro fator importante para escolher cobaias  a prpria anatomia do bicho. No  muito til estudar olhos de insetos, por exemplo, que tm a viso muito diferente da nossa. Mas algumas lulas e lesmas-do-mar, apesar de serem muito mais primitivas, tm neurnios gigantescos, que j ajudaram muito neurocientista a entender o nosso crebro. J o tamanho dos porcos faz com que eles sejam o alvo ideal para testar transplantes de rgos, por exemplo. Ratos so pequenos, mas so mamferos  e boa parte de suas funes corporais  parecida com a nossa. 
     Todos esses motivos foram levados em conta quando ratos e camundongos comearam a ser usados como cobaias. Mas razes muito menos cientficas tambm entraram no jogo. Por exemplo: esses roedores se reproduzem com facilidade e rapidez, e chegam  maturidade sexual em poucos meses  o que  uma mo na roda quando voc precisa de muitos indivduos para ter resultados confiveis.  mais fcil e rpido criar 100 camundongos do que 5 macacos. Os roedores conseguem ter seus primeiros bebs, uma ninhada de 6, com 5 semanas de vida. J chimpanzs, por exemplo, s tm um filhote por vez, e as fmeas s engravidam depois dos 10 anos de idade. Os roedores tambm so pouco exigentes em relao a comida e abrigo. Ocupam relativamente pouco espao, e podem ser abrigados em gaiolinhas como as de passarinho. Hoje em dia, os biotrios, instalaes onde a bicharada dedicada  pesquisa  abrigada, viraram fbricas de fazer rato.
     Resumo da pera: a pesquisa biomdica  hoje o imprio da rataria. Dados da Unio Europeia, de 2008, indicam que apenas 20% dos vertebrados usados em laboratrios no eram roedores (somando peixes e aves, com cerca de 15% do total; coelhos, porquinhos-da-ndia e hamsters, que fazem outros 5%; e cavalos, macacos, porcos e ces, que juntos no chegam a 1%). Os outros 80%, ou 12 milhes de cobaias na Europa, so ratos e camundongos. Extrapolando esse nmero para o resto do mundo, chegamos ao aterrador nmero de 90 milhes de bichos dando a vida para a cincia por ano no mundo. Essa monarquia absoluta raramente era questionada para valer. Coube a um pesquisador americano dizer que o rei estava nu. Nu e gordo  o que pegou mais mal ainda.

REGIME NELES?
     Foi Mark Mattson, do Laboratrio de Neurocincias do Instituto de Envelhecimento, que deu o alarme. Como neurocientista, seu principal interesse de pesquisa so problemas neurolgicos, como derrames, mal de Parkinson e de Alzheimer. Contra esses males, diversas pesquisas recentes tm mostrado que ingerir menos comida pode ajudar a diminuir os sintomas. Para ns ficou muito claro que as condies normais de criao dos roedores eram ruins para o crebro conforme os animais envelheciam, diz Mattson. Voc provavelmente j leu  inclusive aqui na SUPER  que um dos principais segredos para a longevidade  restringir a ingesto de calorias. Mas boa parte dos estudos que apontaram isso tambm pode ter sido feita em ratos sedentrios. E agora?
     Por isso, Mattson e seus colegas decidiram medir qual era o peso (sem trocadilhos) dessas distores nos ratos. O resultado foi bem... enftico. Eles descobriram que roedores de laboratrio normais muitas vezes so morbidamente obesos  alguns ratos chegam a pesar 1 kg, o equivalente a um humano de 200 kg. E metade dessa massa corporal  gordura. Alm disso, os animais tinham presso 15% mais alta, nveis de glicose no sangue 20% mais elevados e o dobro do colesterol de roedores criados em condies mais naturais. Ou seja,  hbito testar novos remdios em animais que no so saudveis normalmente  e no vo reagir s substncias de forma confivel. Quando falei com outros cientistas ao redor do mundo sobre os nossos achados e mostrei que os animais normais deles eram superalimentados, sedentrios e pr-diabticos, eles responderam que nunca tinham considerado esse fato ao elaborar seus estudos, diz Mattson. Boa, cincia.
     Ainda no d para saber at que ponto essa situao teve impactos sobre os resultados de experimentos e, claro, sobre os tratamentos sugeridos para ns, seres humanos esbeltos. Mas Mattson tem certeza de que algumas pesquisas esto indo na direo errada. Por exemplo, quando simulamos um derrame cerebral em camundongos, os danos ao crebro diminuem se a dieta ficar menos calrica. Mas isso pode significar que as drogas que reduzem o dano cerebral nos animais que comem demais no vo funcionar nos bichos com alimentao normal, diz o pesquisador americano. De qualquer forma, os argumentos que ele levanta deixaram a pulga atrs da orelha em muito cientista por a. O ponto levantado por esses caras  relevante e, provavelmente, correto. Provoca uma discusso importante, diz o brasileiro Marcelo Nbrega.
     
TUDO EM FAMLIA
     Gordices  parte, os pesquisadores esto lidando tambm com outra consequncia indesejvel da criao de roedores de laboratrio. Depois de dcadas de reproduo intensiva, os bichos acabaram sofrendo uma padronizao gentica  e ficaram todos parecidos demais. Na verdade, padronizar os bichos at fazia parte do plano original para garantir que todos os testes tivessem os mesmos resultados sobre todos os ratinhos. Por isso, os cientistas passaram a incentivar cruzamentos consanguneos  de pais com filhas ou de irmos com irms  para criar as linhagens de roedores. Algumas, como a chamada Black-6 (de camundongos), tornaram-se to populares que acabaram dominando fatias imensas do mercado de bichos de laboratrio. Mas existem indcios de que essa estratgia foi longe demais. Na nsia de criar modelos homogneos, os pesquisadores podem ter ficado com um mico na mo  linhagens de ratinhos to particulares que no representam mais a biologia de sua espcie (para nem falar de seres humanos). O que, na prtica, torna esses bichos pouco teis como modelos. Para muitos,  mais indcio de que o uso de cobaias deveria ser banido dos laboratrios.
      essa perspectiva que est levando os pesquisadores a considerar o uso de cobaias menos convencionais. Uma das possibilidades so os saguis  que tm a vantagem de serem primatas, como ns e, ao mesmo tempo, so bem menos lerdos para se reproduzir do que outros macacos. E h, claro, o rato-toupeira-pelado, cujo genoma foi sequenciado recentemente, e que  especialmente interessante porque quase no fica doente. A criatura parece ter descoberto a fonte da juventude dos roedores. Enquanto ratos e camundongos vivem 3 ou 4 anos e morrem de cncer se no forem devorados antes, o rato chega fcil aos 25 anos. Talvez ele possa nos ensinar uma ou duas coisas sobre longevidade. Mas, claro,  apenas um exemplo das milhares de espcies que podem ser teis para entendermos nossas prprias doenas. Isso, se no resolvermos entupi-las de comida,  claro.

RATAZANDO A CINCIA
Contra essas doenas, os ratos mais atrapalham que ajudam.
CNCER - No  difcil fazer um cncer humano crescer em ratos. Mas essa facilidade dos roedores de desenvolver tumores tem pouco a ver com a dinmica da doena em humanos, o que leva os cientistas a questionar at que ponto os dados so traduzveis para ns.
TUBERCULOSE - Desenvolver novos remdios contra o bacilo de Koch envolve testes em roedores, mas o organismo dos bichos responde ao micrbio de forma muito diferente dos humanos. Isso levanta dvidas sobre se as drogas boas para rato sero boas para ns.
ENVELHECIMENTO - Nas ltimas dcadas, estudos que deixavam as cobaias passando fome indicavam que o caminho para a longevidade  comer muito pouco. O problema  que estavam comparando bichos que tinham comida  vontade (provavelmente obesos) com outros que comiam normalmente. Tudo indica que os obesos  que estavam morrendo cedo, e no os seus colegas  que morriam tarde.

O PORCO  O NOVO RATO
O que outros animais tm a nos ensinar que os roedores no tm.

MOSCA - A famosa drosophila  fcil de criar em Laboratrio (alis,  fcil de criar em qualquer lugar) e tem caractersticas que ajudam no estudo da gentica. Ela tem cromossomos gigantes nas glndulas salivares larvais que ajudam os cientistas a visualizar como os genes funcionam.
PEIXE-ZEBRA - O peixinho Danio rerio, popular em aqurios de todo mundo,  um dos reis da embriologia. Seus embriezinhos so grandes, transparentes e se desenvolvem fora do corpo da me, o que ajuda a visualizar todo o processo de construo do corpo de um vertebrado, como ns.
LEBRE-DO-MAR - Foi ao estudar as clulas nervosas dessa lesmona marinha de at 75 cm que o pesquisador americano Eric Kandel ganhou um Nobel de Medicina. Ela tem um sistema nervoso extremamente simples  apenas alguns milhares de neurnios  e que permite ao bicho vrias formas de aprendizado. Com isso, foi usada para estudar a memria.
VERME - O Caenorhabditis elegans  um verme de apenas 1 mm de comprimento. Ele possui um nmero limitado de clulas (pouco mais de mil), o que ajuda os cientistas a estudar sua especializao  como cada clula assume sua funo nos tecidos do organismo.
PORCO - Por causa do tamanho, so os animais ideais para estudar transplantes de rgos. Alm disso, porcos podem ser modificados geneticamente para que seus rgos se tornem compatveis com o nosso organismo. Isso evita os riscos de rejeio e a necessidade de arrumar um doador humano.

PARA SABER MAIS
Zoobiquity: What Animals Can Teach Us About Health and the Science of Healing 
Barbara Natterson-Horowitz e Kathryn Bowers, Knopf 2012
African Mole-Rats Ecology and Eusociality
Niger Bennett e Chris Faulkes, Cambridge University Press, 2000


4. SADE  O QUE COMEM OS ATLETAS
Eles comem muito, mas controlam os nutrientes  risca e no tiram o olho da balana. Conhea a dieta de 8 atletas que representam o Brasil na Olimpada. E veja que antes da luta, do salto e da corrida, vem o caf, o almoo e a janta.
TEXTO LUIZ ROMERO
DESIGN RAFAEL QUICK
FOTO ALEX SILVA

O LEVANTADOR
Fernando Reis pratica um esporte de arrancada  em segundos, levanta mais de 200 kg. Para isso, usa energia e msculos, dois fatores ligados a protenas e gorduras, que dominam a dieta do levantador. Por isso, ele  uma exceo: nenhum dos outros atletas desta matria come tanta carne. Mas no se preocupe. Foi devorando 8 ovos e 3 bifes no caf da manh que Fernando conquistou o ouro nos Jogos Pan-Americanos, em 2011.
FERNANDO REIS
Levantamento de peso
22 anos
1,86m
139kg
Alimentao: 39% gordura; 30% carboidrato; 31% protenas
8900 calorias
Mdia do brasileiro: 2200 calorias

OS GINASTAS
Mesmo esporte, mesma famlia: dietas diferentes.
Diego e Daniele Hyplito so irmos e, juntos, no alcanam a quantidade de calorias consumida por Marlson dos Santos (abaixo). Por qu? Os ginastas sofrem desde cedo para serem magros e pequenos, conta Camila Melo, nutricionista da Unifest.  Muitas vezes, aparelhos e manobras obrigam o atleta a sustentar o peso do corpo no ar.
DIRGO HYPLITO
GINSTICA ARTSTICA (SOLO)
26 anos
1,70
68,5 Kg
Gordura 18%
Protena 23%
Carboidratos 59%
Consumo de calorias de Diego Hyplito 2100
Mdia de consumo de calorias do brasileiro 2200

DANIELE HYPLITO
GINSTICA ARTSTICA (SOLO E TRAVE)
27 anos
1,47m
50,5 Kg 
Consumo de calorias de Danieli Hyplito 1200
Mdia de consumo de calorias da brasileira 1700

O MARATONISTA
Ele come bem (e corre por duas horas seguidas).
Para segurar duas horas de prova e correr por 42 km sem parar, Marlson dos Santos, que venceu a Corrida de So Silvestre 3 vezes, consome 3500 calorias por dia. E muito carboidrato. Esse  o nutriente dos maratonistas e de todos os atletas que precisam fazer a mesma atividade por muito tempo, como os ciclistas e os nadadores de longa distncia. O motivo:  mais fcil tirar energia de carboidrato do que de protena, por exemplo, que  utilizada pelos esportistas de exploso, que fazem um movimento e depois param.
MARLSON DOS SANTOS
MARATONA
34 anos
1,74 m
59Kg
11% Protena
19% Gordura
70% Carboidrato
Calorias 3500
Mdia do brasileiro 2200

OS JUDOCAS
O ligeiro e o pesado
So dois extremos: Felipe Kitadai come 2200 calorias e pesa 60 kg, Rafael Silva ingere 7300 calorias, quase o triplo, e ultrapassa 160 kg. E eles praticam o mesmo esporte. E bem. Felipe e Rafael ganharam ouro (na categoria ligeiro) e prata (em pesado), respectivamente, no Pan, em 2011.

FELIPE KITADAI
JUD (LIGEIRO)
23 anos
1,64 m
60 Kg
24% Protena
15% Gordura
61% carboidrato
Calorias 2200
Mdia do brasileiro 2200

RAFAEL SILVA
JUD (PESADO)
24 anos
2,03 m
1,77 m
81 Kg
24% Protena
26% Gordura
50% Carboidrato

O meio-mdio
Lutando na categoria leve, Leandro Guilheiro Levou bronze na Olimpada de Atenas e Pequim. Estava bom, mas queria melhorar. Decidiu mudar de categoria: engordou e passou a lutar como meio-mdio. Esse crescimento foi estratgico e incluiu uma dieta cuidadosa, cheia de mudanas sutis.
LEANDRO GUILHEIRO
JUD (MEIO-MDIO)
28 anos
1,77 m
81 Kg
26% protena
11% Gordura
63% Carboidratos
Ele comia 2200 calorias quando leve...
... e passou a comer 2900 para chegar a meio-mdio

O NADADOR
Na rotina, 10 refeies e 4200 calorias
Por dia, Bruno Fratus faz 10 refeies e ingere 4200 calorias. Nadadores passam vrias horas na piscina e, assim como os outros atletas, gastam muita energia, que precisa ser reposta.  Por isso, comem de tudo, explica Camila Melo, da Unifest.  Isso explica o contraste nos nutrientes: Fratus ingere menos carboidratos e mais protena e gordura do que os ginastas e os judocas.
BRUNO FRATUS
NATAO (50M LIVRE E 4 X 100 M LIVRE)
22 anos
1,87 m
80,7 kg
27% protena
20% Gordura
53% Carboidrato
Calorias 4200
Mdia do brasileiro 2200 calorias

E SE EU FIZER A DIETA DE UM ATLETA?
A lgica  simples: se uma pessoa no gasta todas as calorias que come, ela vai engordar, explica Camila.  E as dietas que voc viu nesta matria esto cheias de calorias, muito mais do que a quantidade recomendada para pessoas que no praticam esportes.  Isso porque atletas gastam muito mais energia do que ns.  Um exemplo dessa situao  a sndrome do ex-atleta, que pode ser observada no caso de jogadores que engordam depois de encerrar a carreira.  Nesses casos, quando esto no auge do treinamento, eles podem comer bastante e, devido ao treino, mantm o peso, conta Camila, quando param de jogar, mas continuam comendo muito, eles engordam.


5. ZOOM  A HISTRIA DAS LETRAS
Com a prensa, so mais de 500 anos e muitas, muitas fontes. Entenda como a histria, da Idade Mdia  Moderna, surge em caixa alta e baixa, impressa em papel.
TEXTO LUIZ ROMERO 
DESIGN RAFAEL QUICK

IMPRESSO E REVOLUO
No sculo 15, o alemo Johannes Gutenberg cria a prensa. Com ela, imprime pginas como essa da figura ao Lado. Mas a inveno de Gutenberg teve precursores: os japoneses imprimiam com tinta desde o sculo 8 e os chineses usavam tipos de metal desde o sculo 11. A sacada do alemo foi unir a tcnica dos orientais com o alfabeto dos ocidentais, pois  mais fcil manipular 26 letras do que 3 mil ideogramas.

LIGACES
Gutenberg une algumas letras para dar a ideia de que o texto foi copiado  mo. Ele no queria assustar os compradores, acostumados com o trabalho dos copistas.

DEMASIADO HUMANA
Depois das letras gticas, que reproduzem a rigidez da idade Mdia, vm as humanistas, reflexo do Renascimento.  A mudana  resultado da movimentao dos criadores de fontes da Alemanha para a Itlia, nos sculos 15 e 16.  Textos com letras desse estilo ajudaram a divulgar o trabalho dos humanistas.

ESTILO ANTIGO
A prensa barateia a produo de impressos, as pessoas comeam a ler mais e passam a querer volumes mais portteis. Na Itlia do sculo 16, surge uma fonte que economiza lugar na pgina e diminui o tamanho do Livro.  o itlico, um dos representantes do Estilo Antigo.
GARAMOND - A Garamond, mostrada na imagem acima leva o sobrenome do francs Claude Garamond, um dos representantes do Estilo Antigo.

ESTILO DE TRANSIO
Criada por matemticos com rgua e compasso, a pedido do rei Lus 14, na Frana do sculo 17, essa fonte representa o Estilo de Transio. Ela quebra com o Estilo Antigo pelo aumento do contraste entre os traos fino e grosso.
BASKERVILLE - Feito no sculo 18, o trabalho do ingls John Baskerville, do final do Estilo de Transio,  um dos mais representativos do perodo.

ESTILO MODERNO
Entre os sculos 18 e 19, surge o Estilo Moderno. Assim como as cidades europeias dessa poca, influenciadas pela cultura e arquitetura greco-romanas, as fontes desse estilo Lembram a grandiosidade das obras clssicas.
DIDOT - Homenagem ao francs Firmin Didot, do Estilo Moderno, a Didot, assim como a Baskerville e a Garamond, existe at hoje nos computadores.

NAS PAREDES DA CIDADE
No sculo 19, a Revoluo Industrial acelera a impresso. O The Times, jornal de Londres, pula de mil folhas por hora, em 1814, para 20 mil folhas por hora, em 1868. Com mais impressos, mais publicidade. E nos anncios e cartazes, as letras no precisam ser to legveis  devem chamar a ateno. Por isso, elas lembram figuras e inovam nas cores, formas e tamanhos.
CONDENSACO - Os cartazes precisavam comportar muitas letras em pouco espao. Por isso, a palavra fica mais apertada, mais condensada.

DE VOLTA PARA O PASSADO
Entre os sculos 19 e 20, na Inglaterra, cresce um movimento contrrio  mquina da Revoluo Industrial. Inspirado no socialismo, o Arts & Crafts tenta criar fontes mais humanas e menos industriais. Elas parecem escritas  mo e Lembram o trabalho dos copistas da Idade Mdia.
FLOREIOS - Os ornamentos, esses floreios em volta das Letras, serviam para resgatar o estilo dos textos escritos  mo. Eles so muito usados at hoje.

OS ARTISTAS DO A LETRA
No sculo 20, as fontes caem nas mos dos artistas, que recusam as regras da criao de fontes. Na Alemanha, o movimento Bauhaus usa formas geomtricas bsicas  o crculo, a quadrado e o tringulo  e, na Holanda, o movimento De StijL cria um alfabeto baseado em linhas perpendiculares.

NA TELA
As fontes, que antes eram pensadas para papel, passam a ser projetadas para a tela. A Verdana e a Georgia, por exemplo, criadas pelo britnico Matthew Carter na dcada de 90, tm minsculas mais altas. Agora, as fontes precisam se encaixar na trama de pixels (e no na trama do papel).
COMIC SANS - A Comic Sans divertida e infantil, foi pensada para um jogo. Mas, divulgada pela Microsoft, j foi usada at em lpide e, recentemente, no anncio de uma descoberta cientfica, o bson de Higgs.


6. TECNOLOGIA  NO LI E CONCORDO
So pginas e pginas de termos misteriosos, usadas por sites e redes sociais para explicar os seus direitos e deveres. Alguns tm palavres e piadas, outros escondem da clusulas abusivas.  No final, voc concorda com todas. Afinal, quem l contratos?
TEXTO LUIZ ROMERO
DESIGN RAPHAEL GALASSI
ILUSTRAO GABRIEL GES

     No comeo de 2005, Doug Heckman resolveu ler um contrato. No meio das clusulas, encontrou algo estranho  um prmio de mil dlares. Entrou em contato com a empresa de softwares PC Pitstop, responsvel pelos termos, e recebeu o prmio. O problema: foram precisos 5 meses e 3 mil cadastros para que algum percebesse a brincadeira. Anos depois, em abril de 2010, a loja de jogos GameStation foi ainda mais longe: escondeu uma clusula que fazia o usurio ceder os direitos da prpria alma  empresa. Enquanto mil pessoas identificaram a brincadeira, 7 mil concordaram.
     Assim como a maioria das pessoas nesses dois casos, voc, provavelmente, no l termos de uso e polticas de privacidade na internet. So 97%, segundo pesquisa da Universidade Stanford, os usurios que pulam direto para o concordo. Ou seja, de cada 100 cadastrados , apenas 3 sabem o que podem e o que no podem fazer dentro de redes sociais, sistemas de busca e ferramentas de postagem.
     Deveriam tomar cuidado: Rebecca Jeschke, ativista da Electronic Frontier Foundation, conta que os abusos so comuns. A EFF defende o direito do consumidor na era da internet: fica de olho nos contratos, registra mudanas e denuncia abusos. E no so poucos: desde empresas que vendem informaes pessoais para anunciantes at companhias que probem que o usurio abra uma ao judicial, passando por aquelas que no respeitam nem os prprios termos. 

informaes pblicas  Os tipos de informaes listados abaixo esto sempre disponveis publicamente e so tratados da mesma forma que as informaes que voc decidiu tornar pblica.

SUA VIDA EXPOSTA
Os tipos de informaes listados abaixo esto sempre disponveis publicamente e so tratados da mesma forma que as informaes que voc decidiu tornar pblica.
     Estamos construindo uma rede em que o padro  o social, disse Mark Zuckerberg. O significado da frase vai muito alm do desenvolvimento do Facebook. Pode envolver a invaso da sua privacidade e a explorao dos seus dados pessoais. A princpio, eles s podem dividir com anunciantes as chamadas informaes pblicas. O truque: algumas informaes  como seu nome, suas fotos do perfil e sua rede de amigos  s podem ser pblicas, no podem ser restringidas por voc. No gostou? Se voc se sente desconfortvel em divulgar seu nome real, pode desativar ou excluir sua conta. A frase no vem de um funcionrio revoltado, mas da poltica de privacidade do Facebook. No sabia de nada disso? Est tudo registrado nos contratos que voc aceitou na hora de se cadastrar. Nos termos de uso, o Facebook justifica a atitude explicando que precisa destes dados para funcionar. No leu os termos? Voc faz parte da massa de usurios de servios digitais que aceitam as regras sem ler. Mas no se torture tanto: mesmo que voc tenha sobrevivido ao jargo jurdico, pode ser que tudo o que voc leu tenha mudado em alguma das frequentes atualizaes. Para Rebecca, apesar de necessrias, estas mudanas podem ser usadas para voltar atrs em clusulas que protegiam a privacidade do usurio.
     
CONTRATO BOCA-SUJA
Ns no queremos lucrar com vdeos adultos e hospedar esse contedo  caro pra c******.
     Como prova esse trecho do contrato do Tumbtr, nem todos os textos so maantes. Parece inacreditvel, mas os termos de uso da rede de postagens so capazes de divertir o leitor. Isso porque eles incluram brincadeiras no meio das clusulas. Alm da mensagem para quem divulga vdeos pornogrficos, na parte que limita a idade de quem usa o Tumblr, eles recomendam aos menores de 13 anos que comprem um Xbox ou leiam um livro. Tambm pedem que no sejam postadas informaes confidenciais, como nmero de carto de crdito, nmero do seguro social, informaes de contato ou fotos do seu ex (no importa a qualidade do material).

Voc tambm concorda que no ir usar estes produtos para quaisquer fins proibidos pela lei dos Estados Unidos, incluindo, sem limitao, o desenvolvimento, projeto, fabricao ou produo de armamento, msseis ou armas qumicas ou biolgicas nucleares.

SEUS APLICATIVOS SO MEUS
Esse contrato permite, em certas circunstncias, a remoo de aplicativos do seu aparelho com Windows 8
     A distncia, a Microsoft pode remover programas do seu computador. E, se voc no tiver guardado os dados associados a eles, pode perd-los. Sim, a empresa precisa de bons motivos: para responder a aes jurdicas ou contratuais ou em casos em que a segurana do usurio est em risco. Pelo menos, eles no escondem o jogo: a clusula aparece logo no comeo do contrato, em destaque. Alm disso, se o aplicativo foi pago, eles devolvem o dinheiro. At a verso de testes do Windows 8, a prtica era comum apenas em portteis. Agora, pode invadir os computadores de milhes de usurios. Vai fugir do sistema operacional? Saiba que voc, provavelmente, j corre o risco de perder aplicativos. Apple e Google, com a App Store e o Google Play, respectivamente, podem fazer o mesmo com os aplicativos que voc baixa no celular ou no tablet. Mas se voc usa Android, corre mais riscos: enquanto a Apple nunca usou a tcnica de remover um aplicativo do iPhone ou do iPad a distncia, o Google j fez isso algumas vezes.

COMPRA, MAS NO LEVA
Aps o pagamento, a Amazon concede o direito no exclusivo de manter uma cpia permanente do contedo digital.
     Em 2009, a Amazon removeu livros do Kindle de alguns usurios, alegando irregularidades na publicao do volume. Poderiam ser exemplares de O Dirio de um Mago ou qualquer um dos 7 volumes de Harry Potter, mas, no, era 1984, de George Orwell, que fala exatamente de uma sociedade que controla produes culturais, onde livros subversivos so atirados ao fogo. Com o sumio desta e de outra obra do autor, A Revoluo dos Bichos, os compradores reclamaram com a companhia  afinal, remover um livro do seu Kindle  o mesmo que retirar um volume da sua estante. Os termos de uso garantiam que isso no poderia acontecer e que o produto ficaria com o comprador de forma permanente. Em resposta, Jeff Bezos, CEO da Amazon, publicou um pedido de desculpas: nossa soluo para o problema foi estpida, imprudente e foge dos nossos princpios. Alm de Bezos, Drew Herdener, representante da Amazon, disse ao The New York Times que a empresa estava mudando os sistemas para que, no futuro, no possa remover livros do dispositivo dos clientes em nenhuma circunstncia.
     
O TAMANHO DO PROBLEMA
Lendo bem rpido  300 palavras por minuto  descubra quanto tempo voc demoraria para vencer os contratos de grandes servios digitais.

SONY
61 pginas
10.895 palavras
36 minutos

APP STORE
16 pginas
8091 palavras
27 minutos

TUMBLR
11 pginas
5128 palavras
17 minutos

FACEBOOK
6 pginas
4056 palavras
13 minutos

WINDOWS STORE
8 pginas
3898 palavras
13 minutos

KINDLE
6 pginas
2609 palavras
9 minutos

GOOGLE
5 pginas
1826 palavras
6 minutos

Quaisquer processos judiciais de resoluo de disputa, seja em arbitragem ou tribunal, sero conduzidos somente de forma individual e no em uma ao coletiva ou representativa.

PROIBIDO PROCESSAR
Quaisquer processos judiciais de resoluo de disputa, seja em arbitragem ou tribunal, sero conduzidos somente deforma individual e no em uma ao coletiva ou representativa.
     Os jogadores da PayStation Network em conjunto, no podem mover processos contra a Sony. Pelo menos, segundo o contrato da rede de jogos. A clausula que probe as aes judiciais em grupo foi adicionada sem muito alarde, mas no sem muito motivo: ocorreu depois da crise gerada durante a invaso da PlayStation Network, entre abril e junho do ano passado, quando dados de 77 milhes de usurios ficaram expostos a hackers. Alm da PlayStation Network, outros servios da Sony foram invadidos. E as contas de outros 24 milhes de usurios ficaram vulnerveis. Depois de colocar em risco informaes de mais de 100 milhes de pessoas, eles tm razo em temer os processos. Ironicamente, a Sony foi processada exatamente pela criao da clusula antiprocesso. O autor da proposta  uma ao coletiva que pretendia representar todos os donos de PlayStation 3  acusava a empresa de prticas injustas.

A SOLUO?
Trs ideias para solucionar o problema dos contratos: as duas primeiras devem partir da empresa, a ltima depende de voc.
Por influncia de americanos e britnicos, os contratos esto ficando cada vez mais detalhados, conta Paulo S Elias, especialista em direito da informtica. E contratos longos, apesar de protegerem empresa e usurio de forma mais completa, so desafiadores para quem s quer finalizar um cadastro. Alm disso, segundo Elias, so to complexos que, no final, ningum sabe o que est assinando. Podem ser menores e mais simples, como prova o Google, que tem apenas uma poltica para mais de 60 servios. E o texto  fcil e rpido de ler (veja grfico acima). Outro jeito, mais complexo e mais efetivo, seria incorporar pedaos da poltica de uso na interface dos servios. Por exemplo, ao compartilhar algo publicamente no Facebook, uma janela explicaria que aquela informao pode ser enviada a anunciantes. Dessa forma, em vez de obrigar o usurio a decifrar os jarges, voc explica as regras caso a caso, conta Rebecca Jeschke, da EFF. Por ltimo, outra soluo, muito mais simples: voc. Crie o hbito de ler os termos de uso, assim mesmo, como eles esto. Apesar de difceis,  possvel tirar algum sentido deles. E, depois, poder decidir se quer correr o risco de se cadastrar.

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Descubra como se defender de contratos abusivos em abr.io/27TH

